segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A NOVA CONFIGURAÇÃO FAMILIAR

Adriana C Mendes         


           A família sofreu muitas mudanças nos últimos tempos. A tradicional configuração, mãe pai e bebê, já não é mais tão tradicional assim, abrindo espaço a outras organizações como, por exemplo, as família monoparentais casais homossexuais, os agregamentos familiares, entre outros. Tendo em vista todas as mudanças da contemporaneidade, sem dúvida as questões colocadas pelas novas configurações familiares submetem alguns dos pressupostos psicanalíticos mais ortodoxos á  reflexão, nos trazendo a seguinte questão: Qual a influência das novas configurações familiares na internalização dos limites para sujeito?
           A partir dos ensinamentos psicanalíticos freudianos, sabe-se que a família é a estrutura responsável pela inserção da criança na cultura. Freud suas teorizações sobre  a internalização do limite para o sujeito ao formular o conceito referente ao Complexo de Édipo. Segundo ele, o complexo envolve investimentos eróticos e agressivos em relação ás figuras parentais e as persistências destas ligações estariam no centro das neuroses (FREUD,1905).
           É a partir do Édipo Freudiano que Lacan irá construir sua teoria e o conceito de função paterna. De acordo com esse autor, para que o desfecho do complexo seja favorável é necessário que o sujeito possa simbolizar a castração, a frustração e a  privação desempenhada pela metáfora paterna.
           O caráter central do Édipo é que, neste período, o sujeito se dá conta que está excluído de uma relação. Entretanto, nada indica que o caráter triangular deva ocorrer com duas pessoas de sexo diferente. Ao afirmar esta questão, podem-se analisar questões edípicas dentro das novas configurações familiares.
           A partir de um resgate sobre Édipo e a Lei da Castração surge a hipótese de que alguns comportamentos que a sociedade repudia ou que é classificado como falta de limite, pode estar endereçado ao que Lacan denomina de “O Grande Outro” é a busca pelo “Nome- do Pai”, pela Lei.
            O interesse em se pesquisar este assunto surgiu ao observar a frequência de reportagens nos noticiários referente aos jovens infratores em nossa sociedade. Pensando nisso questionou-se sobre o porquê destes jovens estarem apresentando  atos transgressivos cada vez mais violentos. Buscando respostas a estes e outros questionamentos, observou-se que além deste comportamento estar mais visível devido á facilidade da divulgação pela mídia dos acontecimentos, outra questão que aparece com frequência  se refere ás novas  configurações familiares.


O COMPLEXO DE ÉDIPO E A SUPERPROTEÇÃO NA CRIANÇA EDIPIANA

Adriana C Mendes

Já não é novidade o quanto a superproteção pode trazer consequências para o desenvolvimento da criança que pode acompanhá-la por toda a vida. É importante que pai e mãe protejam seus filhos, até mesmo para que eles se sintam amados e protegidos, mas é importante também que saibam quando deixar a “corda mais frouxa”. Pais superprotetores podem impedir que a criança crie independência, e criá-la faz parte de um desenvolvimento sadio. Pensando nisso, qual seria o peso da superproteção durante a fase do Complexo de Édipo? Poderia trazer consequências ainda maiores?
De acordo com a teoria freudiana o CE é introduzido em uma das fases do desenvolvimento psicossexual, a denominada fase fálica, que ocorre aproximadamente dos 3 aos 7 anos de idade. É nessa fase que a criança começa a se interessar pela diferença anatômica do sexo oposto e a sentir prazer na estimulação do pênis ou do clitóris. O prazer começa a deixar de ser auto erótico, a criança passa a fantasiar o contato genital, e por volta dos 5 anos de idade, ela começa a focalizar uma outra pessoa: o progenitor do sexo oposto.
A mãe é o primeiro objeto de amor e identificação tanto para o menino quanto para a menina. Aquela que cuida, protege, alimenta, mas que representa também um poder avassalador. E é nessa fase que a criança se depara com um conflito entre querer continuar tendo essa proteção e criar independência. O pai simboliza o mundo externo, aquele que sai, conhece o mundo e retorna.
Aqui podemos começar a pensar nas consequências que a superproteção e o não estímulo para a independência podem trazer para a vida da criança. Há um conflito muito grande entre continuar sendo protegida e criar independência, se afastando um pouco dessa mãe que protege, mas que também representa poder absoluto e assustador. Penso ser uma fase delicada, que exige atenção e amabilidade dos pais para com a criança, pois ela deseja a independência, mas deseja também continuar sendo protegida. É importante estimulá-la a criar independência e em contrapartida mostrar que ela continuará tendo amor e proteção.
Em meio a esse conflito a criança busca pelo pai, e o pai entra na relação como um neutralizador desse poder. O menino ao buscar pelo pai se identifica (os dois possuem pênis), e se sente acolhido como o camarada do papai. Mas nessa relação há um conflito, o mesmo pai que é amado é visto como um rival do amor da mãe. Em contrapartida, o pai também enxerga o filho como rival (vale lembrar que todo esse processo é inconsciente), pois é aquele que por determinado tempo o fez dividir a atenção e amor da esposa. O que de fato acontece após o nascimento de um filho (a), onde passa a existir mais alguém entre a relação do casal e que no inicio dependerá totalmente de cuidados. Então podemos perceber que o menino conseguiu identificar-se com o pai e tê-lo como neutralizador. Ele ama e ao mesmo tempo vê esse pai como rival, mas o seu objeto de amor edipiano continua sendo a mãe.
No caso da menina o processo se complica um pouco. Ao recorrer ao pai ela se depara com uma grande decepção, ela não se identifica com ele (ela não tem um pênis), e não se sente acolhida como uma camarada, da forma que o menino se sentiu. Mas ela ainda precisa do pai para neutralizar o poder da mãe, então ela busca um meio de conseguir que ele a acolha. Como ela se identifica com a mãe e percebe a relação de amor erótico que a mãe tem com o pai, ela passa a usar do poder de sedução para atrair e conseguir ser acolhida. É nesse ponto que acontece a troca do objeto de amor edipiano para a menina. No início ele também era a mãe, mas agora passa a ser o pai.
Durante essa fase os desejos são direcionados ao progenitor do sexo oposto, e a criança também se depara com o tabu do incesto, sentimento de culpa e vergonha muito grande.
Logo após, a criança entra no período de latência, que fica entre a fase fálica e a fase genital e dura aproximadamente dos 7 anos até a puberdade. Nesse período os impulsos e desejos sexuais incestuosos são recalcados, se tornam conteúdos inconscientes e em nenhum momento são lembrados.
A mãe é o primeiro objeto de amor e identificação tanto para o menino quanto para a menina. Aquela que cuida, protege, alimenta, mas que representa também um poder avassalador. E é nessa fase que a criança se depara com um conflito entre querer continuar tendo essa proteção e criar independência. O pai simboliza o mundo externo, aquele que sai, conhece o mundo e retorna.
A passagem do período de latência para a puberdade é marcada pela entrada na fase genital, a última fase do desenvolvimento psicossexual, que vai da puberdade em diante. Aqui a criança se depara com um novo conflito: “Não posso desejar quem amo, mas posso desejar um outro que não amo”. E ela tem a grande tarefa de fazer com que os impulsos sexuais entrem em harmonia com os impulsos carinhosos e o amor. Deverá encontrar uma maneira de se livrar do CE, direcionando seu desejo e atenção para um novo objeto de amor, livrando-se do desejo pelo progenitor. E para que essa transição seja bem sucedida é necessário que ela se relacione com outras pessoas e com o mundo externo.
Nesse período é preciso que pai e mãe sejam atenciosos porque o progenitor do sexo oposto ainda é o objeto de amor edipiano, visto como rival, e qualquer mensagem que faça parecer que o filho assumiu o lugar do pai ou a filha assumiu o lugar da mãe, o tornará um vitorioso edipiano ao invés de ajudá-lo a alcançar uma resolução sadia do CE. E um vitorioso edipiano possivelmente poderá vir a se tornar um adulto com dificuldades de se relacionar com pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto.
Segundo Freud, a resolução pode ser positiva ou negativa. Na resolução positiva a criança se identifica com o progenitor do mesmo sexo e encerra a competição – A menina se identificará com a mãe, e buscará por alguém como o pai, e o menino se identificará com o pai e buscará por alguém como a mãe. Na resolução negativa, a criança abandonaria a competição e adotaria uma posição homossexual. Por exemplo, desejar o amor do pai e não ser correspondida da maneira fantasiada mais a percepção de que aquele amor continua sendo da mãe, poderia levar a menina a se sentir traída e passar a se afastar de todos os outros homens.
Dito tudo isso, vamos pensar em todo esse conflito inconsciente unido a uma possível superproteção materna ou paterna: ele/ela precisa direcionar o seu desejo e atenção para um outro objeto de amor, mas não enxerga possibilidades de fazê-lo porque de certa maneira se vê proibido de se relacionar com o mundo externo e/ou o sexo oposto. A criança sente culpa por desejar, caminha para a resolução do CE, mas recebe uma mensagem contrária. Se o pai ou a mãe a proíbem de se relacionar com o sexo oposto, por exemplo, e demonstram ciúme, ele/ela pode entender que é a menininha do papai ou o menininho da mamãe. Pronto, temos aí a mensagem tanto para o menino quanto para a menina de que venceram a competição com o progenitor do sexo oposto e tomaram o lugar do pai ou da mãe. Então a superproteção e consequentemente repressão, a levaria a uma resolução negativa do CE.
Apesar de Freud acreditar que dificilmente uma pessoa passa por essa fase ilesa, pois os conteúdos recalcados nesse período são muito fortes, uma resolução do CE sadio é o que dará mais chances de que a criança venha a se tornar um adulto com bons relacionamentos com o sexo oposto e com pessoas do mesmo sexo. Uma fixação durante a fase do CE em um dos progenitores pode trazer consequências desagradáveis, por exemplo, o adulto casar-se, mas não conseguir se relacionar de uma maneira saudável, pois inconscientemente crê que está traindo o pai ou a mãe. Os raros casos em que o indivíduo consegue uma resolução positiva, e emerge ileso, exige muito de pais extremamente sensíveis e saudáveis. Se isso acontecer, seus relacionamentos adultos têm grandes chances de serem saudáveis e livres de culpa e medo excessivos. E esses indivíduos serão capazes de passar para seus filhos e filhas uma criação com a mesma amabilidade com a qual foram criados.
Uma fixação durante a fase do CE em um dos progenitores pode trazer consequências desagradáveis, por exemplo, o adulto casar-se, mas não conseguir se relacionar de uma maneira saudável, pois inconscientemente crê que está traindo o pai ou a mãe.
BIBLIOGRAFIA
KAHN, MICHAEL. Freud Básico. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. 59-122 p.

PERSONALIDADE O TEMPERAMENTO E O CARÁTER

Adriana C Mendes


Personalidade é um tema complexo. Conceituá-la de modo útil e compreensivo é uma difícil tarefa para os estudiosos do assunto. Sabemos que não há duas personalidades idênticas como não existem duas pessoas idênticas, embora muitas pessoas possuam traços em comum. A personalidade é temporal, pertence a uma pessoa que nasce, vive e morre. Personalidade é a resultante psicofísica da interação da hereditariedade com o meio.
O desenvolvimento da personalidade está intimamente associado ao desenvolvimento físico. Entretanto, as pessoas tendem dissociar o psíquico do físico, supervalorizando funções psíquicas como, por exemplo, a afetividade e subestimando funções físicas como, por exemplo, a excreção. Sabe-se, porém, que as primeiras motivações e ansiedades do ser humano estão ligadas aos processos fisiológicos.
Seja qual for a fase do desenvolvimento, a personalidade apoia-se na estrutura física do indivíduo, a qual chamamos constituição. Nesta há um conjunto de características individuais hereditárias que podem ou não se desenvolver nas interações com o meio. A este conjunto dá-se o nome de genótipo. Por outro lado, existem características individuais adquiridas basicamente por influência do meio e que no conjunto são chamadas de parátipo.
Entretanto, quando se observa uma pessoa, ela apresenta-se com sua estrutura fenotípica que é o resultado da integração genótipo- parátipo. Sem aprofundar o significado dos conceitos acima, por analogia, podemos relacionar, no plano psicológico, temperamento com genótipo, carácter com parátipo e personalidade com fenótipo.
Temperamento é a tendência herdada do indivíduo para reagir ao meio de maneira peculiar. Assim, desde o nascimento, entre os indivíduos verificam-se diferentes limiares de sensibilidade. Frente aos estímulos internos ou externos, diferenças no tom afetivo predominante, variações no ritmo, intensidade e periodicidade dos fenómenos neurovegetativos (que funciona involuntariamente ou inconscientemente).
Carácter é o conjunto de formas comportamentais mais elaboradas e determinadas pelas influências ambientais, sociais e culturais, que o indivíduo usa para adaptar-se ao meio.
Ao contrário do temperamento, o carácter é predominante volitivo (depende da vontade) e intencional. Entretanto, de modo geral, temperamento e carácter estão intimamente associados, podendo estar tão imbricados que se torna difícil sua distinção.
Portanto Personalidade é a interação dos aspectos físicos, temperamentais e características. A personalidade vem da palavra latina persona, que se refere à máscara utilizada pelos atores em uma peça de teatro. Nesse sentido, podemos perceber como persona se refere à aparência externa que mostramos a quem nos rodeia.
Se pensarmos um pouco, vamos perceber que de fato usamos algumas máscaras na nossa vida, ou seja, dependendo do momento e das pessoas que estão conosco, utilizamos máscaras diferentes. Imaginemo-nos em um parque de diversões com nossos primos; nossa tendência é brincar no maior número de brinquedos, rir bastante e lembrar  dos tempos da infância.
Agora, Imaginemo-nos no primeiro dia do estágio, aquele frio na barriga... tendemos a nos comportar da maneira mais formal e respeitosa possível, ou seja, bem diferente do primeiro exemplo, porque nós sabemos que no ambiente profissional as expectativas em relação ao nosso desempenho são referentes à nossa carreira profissional, enquanto no parque de diversões as expectativas são de lazer.
Mesmo compreendendo que a nossa personalidade diz respeito às características externas e visíveis, podemos questionar sobre as nossas atitudes mais íntimas, nossos pensamentos secretos, sonhos, desejos, fantasias, enfim nosso “eu” mais profundo e desconhecido pelos outros e até mesmo por nós mesmos. Com certeza, nossa personalidade também engloba tudo o que as outras pessoas não veem e nem nós conhecemos em alguns momentos. Por exemplo, já aconteceu de você ficar surpreso com algo que você fez e nunca imaginou ter coragem de fazer antes ou sequer pensava ser capaz de fazer, como uma declaração de amor em público.
Escolher um único conceito para personalidade não é suficiente para expressar o que de fato a compõe, pois muitos autores já tentaram definir essa palavra e o fizeram de diferentes maneiras. Existem teorias que se assemelham e outras que diferem em relação ao estudo da personalidade, mas independente da teoria escolhida, todas concordam que existem princípios que norteiam os mais diferentes conceitos de personalidade. A seguir, temos os princípios:
Princípio da globalidade: Personalidade é tudo que nós somos, ou seja, elementos inatos, adquiridos, orgânicos e sociais. Princípio social: Todas as pessoas necessitam de convívio social, ou melhor, interagir com outras pessoas. Mesmo as pessoas mais tímidas e reservadas sentem necessidade de contato interpessoal.
Princípio da dinamicidade: A personalidade organiza, integra e harmoniza todas as formas de comportamento e características do ser humano. Nossa vida é cheia de acontecimentos e a nossa personalidade tenta organizar isso da melhor maneira possível.
Princípio da individualidade: Cada um de nós é único no mundo. A personalidade é um conjunto total de características próprias do indivíduo, as quais  o diferencia das demais pessoas.
Com base nas consultas bibliográficas, concluímos que a personalidade é a resultante psicofísica da interação da hereditariedade com o meio, manifestada através do comportamento, cujas características são peculiares a cada pessoa. E que seja qual for a fase do desenvolvimento, a personalidade apoia-se na estrutura física do indivíduo, a qual chama-se constituição. Compreendemos também que a personalidade de um ser depende de vários fatores, entre os quais são mencionados a constituição, temperamento e o carácter.


FILHOS DO MEDO


Eliani Gracez

O ser humano encontrou no medo uma forma de organização social. Surge assim a cultura do medo. Impor limites, para alguns, é impor o medo. E assim, milhares e milhares de crianças foram educados pelo medo, para o medo e com medo. Crianças que cresceram limitadas, angustiadas, e, é claro, infelizes. Quando uma criança é educada com medo, ela se torna obediente e incapaz de impor sua vontade diante das relações desiguais. O medo assume uma representação marcante e limitadora da potencialidade humana. Por isso, a educação, historicamente, se deu através de castigos e agressão. E assim, ao longo dos séculos, o medo foi “o carro chefe” da educação. Como bons filhos do medo, tememos até mesmo a liberdade, pois o medo impõe um limite atroz, e por isso desconhecemos a liberdade. Medo de morrer, medo da velhice, medo da doença, medo de perder o que foi conquistado, medo de promover mudanças na vida, por isso preferimos a mesmice, medo do desconhecido. Medo de encarar um novo desafio e perder tudo. Medo de ter que começar tudo outra vez. Medo! Medo! Medo! Onde há o medo não pode haver sabedoria, dizia um filósofo antigo. Não sabemos mais viver sem medo e sem disseminar o medo. Seja através de uma chinelada no filho ou um olhar ameaçador. Tem até quem pense que só respeitamos aqueles a quem tememos. É por não saber fazer se respeitar de outra forma, que o ditador impõe o medo e alguns pais usam o chinelo. Quanta ausência de sabedoria! Tudo isso, porque ao invés de criar a cultura da felicidade e ensinar aos filhos a ter responsabilidade diante da vida, por falta de sabedoria, criamos a cultura do medo. E hoje, por mais que uma mudança no paradigma da educação seja necessária, tememos a mudança. Foram séculos e mais séculos de educação pelo medo. E com isso, a liberdade em pessoas despreparadas para ela, tomou caminhos tortuosos. Tudo isso porque a liberdade na cultura do medo foi afastada, extirpada como se fosse um grande mal. O desafio é grande, acabar com a cultura do medo é dar a todos os seres humanos a mesma condição de igualdade ou de liberdade com responsabilidade. Por isso hoje se fala em “rede” ou “teia” na área da educação na da família. Onde uma pessoa não é mais importante do que a outra. O problema é, quem é que sabe educar sem se impor através do medo? Onde estão nossos sábios? Ditadores poderíamos apontar um monte, mas sábios, quem conhece um?

sábado, 3 de agosto de 2019

TERAPIA DE CASAIS

Eliani Gracez

A procura pela terapia de casais tem aumentado muito nos últimos tempos. Não é fácil estabelecer um padrão de relacionamento, no entanto, é possível configurar uma estrutura sólida dentro da relação. Casais lgbt podem enfrentar as mesmas dificuldades de relacionamento que os casais heterossexuais enfrentam.  As pessoas esperam encontrar no outro uma maturidade emocional que atenda a sua carência afetiva, mas nem sempre isso acontece devido, por exemplo, aspectos como a realização profissional, desemprego, estresse etc. Ao nos aproximar de alguém a pergunta que podemos nos fazer é o que eu tenho para oferecer ao outro? Ou será que eu só quero receber?  Entre o dar e o receber reside um dos fatores do equilíbrio emocional de uma relação. Embora esse equilíbrio vá além das emoções. Somos condenados a investir! Investir em um vínculo com o outro, investir nos nossos sonhos, investir no nosso trabalho, e assim aprendemos com os investimentos que fazemos. Cada investimento é um novo aprendizado. E assim são as relações inter pessoais.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

REPRESSÃO SEXUAL

Eliani Gracez  

         As tendências reprimidas que se encontram no inconsciente, segundo Freud, “trata-se quase sempre de tendências sexuais”. Um pansexualismo que ainda perpassa a obra de Freud e seus discípulos. Não vamos confundir o “quase sempre” com “sempre”. Se no inconsciente encontram-se uma parte maior de tendências sexuais do que outras tendências, isso deve-se ao fato da existência de processos inconscientes expulsos da consciência pela repressão. Os elementos que não foram reprimidos permanecem na consciência.

         Desde longa data, a sociedade e tendências religiosas, condenam a livre expressão da sexualidade. Sendo canalizada esta expressão para o casamento legal, ou seja, um único parceiro de sexo oposto e para toda a vida. Questões sobre a sexualidade são estudadas por Freud desde a infância do analisando, e assim ele afirma tendências sexuais na criança. Ao afirmar a sexualidade infantil, foi possível também afirmar a repressão sexual na criança promovida pelos pais e pela sociedade. Repressão esta que foi feita a partir de um modelo de educação opressor que não prepara a criança para a sexualidade e sim reprime a pulsão sexual desde a mais tenra idade. E assim Freud conclui que se os elementos sexuais são reprimidos desde a infância é porque eles estão lá desde este estágio. Com esta visão, fruto de dedução dialética, Freud conquistou adversários e verdadeiros inimigos, chocou o senso comum bem como os meios científicos e pedagógicos de sua época. Ele demonstrara a partir de seus estudos sobre o inconsciente que o espírito crítico e o julgamento racional do homo sapiens constituem apenas uma parte do psiquismo humano. Ao lado deste psiquismo existe uma mentalidade pré-lógica, afetiva que emana do inconsciente. Este material, muito mais pressentido, influi no raciocínio lógico. Isso significa que os medos, a repressão, a moral e a forma como uma criança é educada tem uma grande influência na racionalidade. Filósofos e médicos, contemporâneos a Freud, ao invés de procederem como pessoas de ciência, comportaram-se como o “homem da rua”. Suas observações exprimiam o preconceito da cultura e do meio social. Existe na criança uma espécie de pré-sexualidade que não se queria ver, e a curiosidade sexual da criança era reprimida.

         Para o psicanalista Abrahão Brafman, o estilo de vida de alguns pais cria problemas nas crianças. A criança se constrói a partir dos exemplos dos pais e daqueles que convivem com ela. O desenvolvimento cognitiva, intelectual e emocional da criança, afeta a visão que a criança tem de si e do mundo. Com a visão da sexualidade na criança foi possível entender melhor o adulto, pois há na criança os traços do instinto sexual. Esse instinto, quando não trabalhado adequadamente na infância, pode dar origem a perversão sexual no adulto.

         O complexo de Édipo rendeu a Freud o título de imoral. Moralistas e preconceituosos tornavam a criança assexuada. A noção de que a criança se identifica com o sexo oposto, podendo desejar sua mãe e odiar o pai, feriu sentimentos na época de Freud. Quando Freud falava de sexual seus adversários compreendiam genital. Isso em Freud é um absurdo! O adulto sente o impulso sexual e toma consciência dele, do objetivo e do objeto, a criança sente o impulso sexual, mas não toma consciência dele.

         Quanto a extensão do termo sexualidade, que foi frequentemente criticado, um simples olhar para a teoria freudiana nos dá a percepção de que o termo abrange mais do que sexo genital. O amor maternal, a ternura, a fraternidade e amizade, derivam da sexualidade. Embora Freud não quisesse afirmar que a amizade, amor, ternura e fraternidade fossem em si elementos sexuais, mas sim que derivam do instinto sexual, da libido e que estavam deslocados ou transformados no psiquismo.

        Para conhecer um pouco mais sobre o complexo de Édipo é preciso remeter ao esquema conforme Freud o concebeu nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que tratam de forma clara sobre o pensamento freudiano. I - Apego da criança em relação a mãe ou parente de sexo oposto ao seu.  II - Hostilidade e ciúme, em relação ao pai ou parente de mesmo sexo, decorrente do primeiro processo. III - Sentimento de admiração e de afeição em relação ao parente de mesmo sexo e que se superpõe aos sentimentos hostis e cria ambivalência. IV - Sentimento de culpa, geralmente inconsciente e que são o cerne da hostilidade experimentada. Assim o menino amará sua mãe e sentirá ciúmes do pai, considerado no inconsciente como seu rival. No entanto, ao mesmo tempo, ele admira a força do pai. O mesmo acontece com a menina que amará seu pai e verá a mãe com hostilidade.

        O complexo de Édipo existe em todas as crianças. Se elas conseguirem eliminá-lo, normalmente esse é o caso, terão chances de não terem dificuldades ou transtornos sexuais. Do contrário estará aberta a porta para as neuroses. É a partir do complexo de Édipo que a sexualidade no adulto começa a tomar forma. O primeiro amor da menina é pelo pai, e deste amor derivam os demais na faze adulta. Mas para isso é preciso vencer o complexo de Édipo e substituir a sexualidade infantil pela sexualidade adulta. O adulto sente o impulso sexual e toma consciência dele e de seus objetivos. A criança sente um impulso semelhante a do adulto mas não toma consciência dele. Quando um adulto sente um impulso sexual, múltiplas formas de representações, jogos sexuais e suas consequências tomam conta da consciência. Nada disso acontece com a criança.

      O preconceito de pessoas que não queriam ter seu inconsciente revelado e que sustentavam uma criança pura, angelical e assexuada levou a acusação de um Freud imoral. No entanto, o pensamento freudiano está embasado no amor maternal, na ternura filial e a amizade que derivam da sexualidade. As relações que unem a mãe e a criança, de certa forma e as relações sociais entre os indivíduos, são ligações amorosas.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O INCONSCIENTE E O SIMBÓLICO

Eliani Gracez

Na busca pelo autoconhecimento iniciamos um processo de comunicação com o nosso conteúdo inconsciente.   Para conhecermos a nós mesmo é preciso entrar em contato com nosso inconsciente que é vasto, subjetivo, ilimitado e simbólico, enquanto nosso consciente é limitado e objetivo.  O consciente não controla o nosso comportamento, pois mesmo nossas ações conscientes em muito resultam do inconsciente. O inconsciente é a região da psique constituída por desejos, paixões, pulsões, libido, recalcamentos e simbolismo. Com paciência e disposição muitos elementos do nosso mundo interior vêm a luz da consciência. No entanto nem sempre isso se dá de forma objetiva, em muitos casos o conteúdo inconsciente vem através de sonhos. Um conteúdo muitas vezes simbólico que permeia nosso sonho. Ao dormir entramos em contato com o inconsciente que é irracional. Por isso, na maioria das vezes, nossos sonhos são desprovidos de racionalidade, e uma tentativa de interpretação do sonho com a mente, que é limitada, tornam-se infrutíferos. O conteúdo inconsciente possui uma amplitude muito maior do que a consciência. A psique é constituída por elementos oriundos de várias fontes: família, cultura, etnia. Em última instância elementos inconscientes da espécie humana. Formando assim o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. Comum ouvirmos de pessoas que existe uma autenticidade em seu pensamento ou jeito de ser. Em uma análise mais profunda é possível identificar uma herança cultural, hábitos adquiridos pelo lugar ou sociedade em que ela foi criada e que moldaram o seu modo se ser. Caindo  nesse caso, em um senso comum e não crítico. Devido a inconsciência da real formação do psiquismo a maioria das pessoas, senão a totalidade delas, não sabem nem mesmo aquilo que elas não sabem. Tornando-se verdadeiros desconhecidos para elas mesmas. Nessa concepção revela-se o senso comum que está enquadrada a maioria das pessoas, contrapostos a um inconsciente que possui uma estrutura imagética, arquetípica, simbólica, instintiva e impulsiva, ou, automática. A consciência opera pelo raciocínio causal e lógico, o inconsciente opera de forma irracional, ele está além daquilo que pode ser compreendido pelos limites da mente. O consciente está em nós por meio da lógica e pensamento analítico, e o inconsciente pode ser encontrado por analogia, encontrado nos sonhos, nas fantasias e no pensamento mítico.

Uma mente que brilha

Eliani Gracez   Em virtude da negatividade do cérebro, é preciso um empenho ativo para interiorizar as experiências positivas e cicatrizar ...