sexta-feira, 26 de julho de 2019

REPRESSÃO SEXUAL

Eliani Gracez  

         As tendências reprimidas que se encontram no inconsciente, segundo Freud, “trata-se quase sempre de tendências sexuais”. Um pansexualismo que ainda perpassa a obra de Freud e seus discípulos. Não vamos confundir o “quase sempre” com “sempre”. Se no inconsciente encontram-se uma parte maior de tendências sexuais do que outras tendências, isso deve-se ao fato da existência de processos inconscientes expulsos da consciência pela repressão. Os elementos que não foram reprimidos permanecem na consciência.

         Desde longa data, a sociedade e tendências religiosas, condenam a livre expressão da sexualidade. Sendo canalizada esta expressão para o casamento legal, ou seja, um único parceiro de sexo oposto e para toda a vida. Questões sobre a sexualidade são estudadas por Freud desde a infância do analisando, e assim ele afirma tendências sexuais na criança. Ao afirmar a sexualidade infantil, foi possível também afirmar a repressão sexual na criança promovida pelos pais e pela sociedade. Repressão esta que foi feita a partir de um modelo de educação opressor que não prepara a criança para a sexualidade e sim reprime a pulsão sexual desde a mais tenra idade. E assim Freud conclui que se os elementos sexuais são reprimidos desde a infância é porque eles estão lá desde este estágio. Com esta visão, fruto de dedução dialética, Freud conquistou adversários e verdadeiros inimigos, chocou o senso comum bem como os meios científicos e pedagógicos de sua época. Ele demonstrara a partir de seus estudos sobre o inconsciente que o espírito crítico e o julgamento racional do homo sapiens constituem apenas uma parte do psiquismo humano. Ao lado deste psiquismo existe uma mentalidade pré-lógica, afetiva que emana do inconsciente. Este material, muito mais pressentido, influi no raciocínio lógico. Isso significa que os medos, a repressão, a moral e a forma como uma criança é educada tem uma grande influência na racionalidade. Filósofos e médicos, contemporâneos a Freud, ao invés de procederem como pessoas de ciência, comportaram-se como o “homem da rua”. Suas observações exprimiam o preconceito da cultura e do meio social. Existe na criança uma espécie de pré-sexualidade que não se queria ver, e a curiosidade sexual da criança era reprimida.

         Para o psicanalista Abrahão Brafman, o estilo de vida de alguns pais cria problemas nas crianças. A criança se constrói a partir dos exemplos dos pais e daqueles que convivem com ela. O desenvolvimento cognitiva, intelectual e emocional da criança, afeta a visão que a criança tem de si e do mundo. Com a visão da sexualidade na criança foi possível entender melhor o adulto, pois há na criança os traços do instinto sexual. Esse instinto, quando não trabalhado adequadamente na infância, pode dar origem a perversão sexual no adulto.

         O complexo de Édipo rendeu a Freud o título de imoral. Moralistas e preconceituosos tornavam a criança assexuada. A noção de que a criança se identifica com o sexo oposto, podendo desejar sua mãe e odiar o pai, feriu sentimentos na época de Freud. Quando Freud falava de sexual seus adversários compreendiam genital. Isso em Freud é um absurdo! O adulto sente o impulso sexual e toma consciência dele, do objetivo e do objeto, a criança sente o impulso sexual, mas não toma consciência dele.

         Quanto a extensão do termo sexualidade, que foi frequentemente criticado, um simples olhar para a teoria freudiana nos dá a percepção de que o termo abrange mais do que sexo genital. O amor maternal, a ternura, a fraternidade e amizade, derivam da sexualidade. Embora Freud não quisesse afirmar que a amizade, amor, ternura e fraternidade fossem em si elementos sexuais, mas sim que derivam do instinto sexual, da libido e que estavam deslocados ou transformados no psiquismo.

        Para conhecer um pouco mais sobre o complexo de Édipo é preciso remeter ao esquema conforme Freud o concebeu nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que tratam de forma clara sobre o pensamento freudiano. I - Apego da criança em relação a mãe ou parente de sexo oposto ao seu.  II - Hostilidade e ciúme, em relação ao pai ou parente de mesmo sexo, decorrente do primeiro processo. III - Sentimento de admiração e de afeição em relação ao parente de mesmo sexo e que se superpõe aos sentimentos hostis e cria ambivalência. IV - Sentimento de culpa, geralmente inconsciente e que são o cerne da hostilidade experimentada. Assim o menino amará sua mãe e sentirá ciúmes do pai, considerado no inconsciente como seu rival. No entanto, ao mesmo tempo, ele admira a força do pai. O mesmo acontece com a menina que amará seu pai e verá a mãe com hostilidade.

        O complexo de Édipo existe em todas as crianças. Se elas conseguirem eliminá-lo, normalmente esse é o caso, terão chances de não terem dificuldades ou transtornos sexuais. Do contrário estará aberta a porta para as neuroses. É a partir do complexo de Édipo que a sexualidade no adulto começa a tomar forma. O primeiro amor da menina é pelo pai, e deste amor derivam os demais na faze adulta. Mas para isso é preciso vencer o complexo de Édipo e substituir a sexualidade infantil pela sexualidade adulta. O adulto sente o impulso sexual e toma consciência dele e de seus objetivos. A criança sente um impulso semelhante a do adulto mas não toma consciência dele. Quando um adulto sente um impulso sexual, múltiplas formas de representações, jogos sexuais e suas consequências tomam conta da consciência. Nada disso acontece com a criança.

      O preconceito de pessoas que não queriam ter seu inconsciente revelado e que sustentavam uma criança pura, angelical e assexuada levou a acusação de um Freud imoral. No entanto, o pensamento freudiano está embasado no amor maternal, na ternura filial e a amizade que derivam da sexualidade. As relações que unem a mãe e a criança, de certa forma e as relações sociais entre os indivíduos, são ligações amorosas.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O INCONSCIENTE E O SIMBÓLICO

Eliani Gracez

Na busca pelo autoconhecimento iniciamos um processo de comunicação com o nosso conteúdo inconsciente.   Para conhecermos a nós mesmo é preciso entrar em contato com nosso inconsciente que é vasto, subjetivo, ilimitado e simbólico, enquanto nosso consciente é limitado e objetivo.  O consciente não controla o nosso comportamento, pois mesmo nossas ações conscientes em muito resultam do inconsciente. O inconsciente é a região da psique constituída por desejos, paixões, pulsões, libido, recalcamentos e simbolismo. Com paciência e disposição muitos elementos do nosso mundo interior vêm a luz da consciência. No entanto nem sempre isso se dá de forma objetiva, em muitos casos o conteúdo inconsciente vem através de sonhos. Um conteúdo muitas vezes simbólico que permeia nosso sonho. Ao dormir entramos em contato com o inconsciente que é irracional. Por isso, na maioria das vezes, nossos sonhos são desprovidos de racionalidade, e uma tentativa de interpretação do sonho com a mente, que é limitada, tornam-se infrutíferos. O conteúdo inconsciente possui uma amplitude muito maior do que a consciência. A psique é constituída por elementos oriundos de várias fontes: família, cultura, etnia. Em última instância elementos inconscientes da espécie humana. Formando assim o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. Comum ouvirmos de pessoas que existe uma autenticidade em seu pensamento ou jeito de ser. Em uma análise mais profunda é possível identificar uma herança cultural, hábitos adquiridos pelo lugar ou sociedade em que ela foi criada e que moldaram o seu modo se ser. Caindo  nesse caso, em um senso comum e não crítico. Devido a inconsciência da real formação do psiquismo a maioria das pessoas, senão a totalidade delas, não sabem nem mesmo aquilo que elas não sabem. Tornando-se verdadeiros desconhecidos para elas mesmas. Nessa concepção revela-se o senso comum que está enquadrada a maioria das pessoas, contrapostos a um inconsciente que possui uma estrutura imagética, arquetípica, simbólica, instintiva e impulsiva, ou, automática. A consciência opera pelo raciocínio causal e lógico, o inconsciente opera de forma irracional, ele está além daquilo que pode ser compreendido pelos limites da mente. O consciente está em nós por meio da lógica e pensamento analítico, e o inconsciente pode ser encontrado por analogia, encontrado nos sonhos, nas fantasias e no pensamento mítico.

sábado, 16 de março de 2019

A GLOBALIZAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO E A DESVALORIZAÇÃO DO HUMANO

Eliani Gracez – Psicanalista 



No final do século passado o pensamento de um mundo global e sem fronteiras, crescia a cada dia. Incontáveis pessoas passaram a se intitular cidadãos do mundo, e o planeta se tornou uma aldeia global. Mas o que ninguém viu foi a globalização do trabalho escravo e a desvalorização do humano. Um exemplo de globalização está em ir a um supermercado na Europa e encontrar o mesmo shampoo  vendido nos supermercados do Brasil. Uma padronização de marketing mundial de uma marca junto aos consumidores. Outro exemplo é uma empresa ter sua sede nos Estados Unidos, filial em vários lugares do mundo e ter equipamentos produzidos na china. Mas a globalização que o mundo não fala é quando uma empresa busca alternativas para aumentar sua lucratividade e se instala em países com mão de obra barata, longa jornada de trabalho, leis trabalhistas flexíveis e usando, muitas vezes, mão de obra infantil. Com o avanço tecnológico empresas automatizadas demitiram funcionários, aumentando o desemprego e o desespero do desempregado. A precariedade de emprego estável e com benefícios que favoreçam o trabalhador tem sido para poucos, a maioria trabalha com contratos e estágios temporários. A globalização andou de mãos dadas com o capitalismo, e pessoas têm sido sacrificadas para obter maior lucratividade. No altar do lucro vale qualquer sacrifício. A globalização e o capitalismo se deram à custa de pessoas exploradas, e agora os países de primeiro mundo resolveram fechar as porta para os pobres e explorados, e fingir que o problema não é seu. As pessoas viraram descartáveis, e por isso tanta falta de respeito. O pensamento sobre o descartável aliado ao capitalismo causou um estrago global. O animal racional não vê a solução e por isso se fecha em si mesmo, dando a isso o nome de conservadorismo.


sábado, 2 de março de 2019

JUNG E O CAMINHO DO INCONSCIENTE


Eliani Gracez – Psicanalista 

                                    
Culturas do passado da humanidade desenvolveram um conhecimento através de arquétipos. Um complexo sistema de pensamento, astrologia, alquimia, numerologia, signos e símbolos que os iniciados do caminho sagrado aprendem a dominar e cuidar para que não caia em mãos profanas. Esse caminho é o caminho da natureza interna de cada pessoa. Tal caminho possui racionalidade diferente da razão limitada do animal racional.  Dentro de nós pode ser encontrada a memória genética, uma memória da nossa natureza original e do motivo pelo qual perdemos nossa originalidade. Carl G. Jung, recuperou o conhecimento hermético que habita no inconsciente de cada pessoa, traduzindo o caminho para uma linguagem psicológica. O inconsciente é caótico, o mesmo caos que a Kabalá e alguns filósofos falam. As manifestações do inconsciente são muitas vezes caóticas e carecem de análise. Sonhos e visões que aparentemente são caóticos contém um sentido. O sentido pode ser encontrado em uma frase, em um pensamento, em um símbolo, em uma obra de arte, e em nossos sonhos e visões. O sentido é uma abstração não só do pensamento, mas também está contido nos sonhos que fluem do inconsciente e no dom da visão. Penetrar no inconsciente é penetrar em uma realidade diferente daquela que estamos acostumados. Por ser diferente não quer dizer que seja errada, quer dizer apenas que é diferente, e tendemos a negar o diferente, origem de todo preconceito. Jung deixou em sua autobiografia experiências onde ele entrou em contato com o conteúdo de seus sonhos e visões, e enfrentamento com suas dúvidas e temores. Jung encontrava restos arcaicos de vida no seu próprio inconsciente. Ele tentou encontrar no mundo real um caminho que desse um sentido ao mistério da vida, como não encontrou tal caminho entregou-se ao estudo do seu inconsciente.

O primeiro [sonho] que recordou foi um episódio de sua infância quando estava acostumado construir casas e castelos com pedra e lama. Esta lembrança serve de conector com sua parte mais genuína e criativa, por isso decidiu reviver esse momento retomando esta atividade de "construção". Começou a criar uma cidade na qual colocou uma igreja, mas notou que resistia a colocar o altar. Um dia, caminhando perto do lago, encontrou uma pequena pedra piramidal de cor vermelha, e ao vê-la compreendeu que devia tratar do altar. No momento que a colocou em seu sítio, voltou para sua mente a lembrança do falo subterrâneo que tinha sonhado de menino, e sentiu um grande alívio.  Parecia que o inconsciente o estava guiando à compreensão daquelas coisas que no passado não tinham tido resposta. (Jung, entre a alquimia & o xamanismo - Laura Morandini & Ariell Chris)

Jung sabia que não podia esperar dos pacientes aquilo que ele mesmo não tivesse conseguido. A diferença entre Nietzsche e Jung foi que Nietzsche se perdeu em seu mundo interior caótico, enquanto a Jung, a família e sua atividade profissional lhe conferiam a normalidade da vida. Em certo momento em sonho lhe apareceu uma figura que Jung chamou de Filemón. Tratava-se de um velho com chifres e asas que trazia consigo quatro chaves. Jung conversava com Filemón, considerando-o uma inteligência superior que o ensinou a diferenciar entre si mesmo e os objetos de seu pensamento. Em certo momento da vida Jung estava diante de uma escolha, ou seguia aquilo que ele descobriu sobre seu mundo interno, ou continuava sendo um acadêmico. Decidiu ser fiel a si mesmo e deixar seu cargo na universidade, entendeu que algo importante estava acontecendo e precisava compreender melhor o que ele havia descoberto antes de tornar tudo público. Jung descobriu o seu próprio mito e foi fiel ao seu inconsciente. Deu-se de conta de que o desenvolvimento psíquico não era linear, mas sim circular, e que tudo tendia ao centro. O centro era a meta!


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A MEDIUNIDADE EM JUNG


Eliani Gracez- Psicanalista                          

Freud é considerado o pai da psicanálise pela descoberta do inconsciente, mas foi com Jung, discípulo de Freud, que a psicanálise começou a pensar a si mesma proporcionando grandes avanços no autoconhecimento. Freud e Jung divergiram em suas ideias, Freud criou uma linha de teorias de origem sexual onde o psiquismo é escravo de seus desejos e pulsões causadas por instintos primitivos e de origem inconsciente. Uma linha pessoal de conteúdos reprimidos e recalcados de forma inconsciente. Jung criou a psicologia analítica e seguiu uma linha transpessoal, considerada por Freud uma linha voltada ao ocultismo, abominada por Freud. Jung se inspirou na cultura, nas artes, na poesia, nas esculturas, nos escritores e na coletividade humana, e seu poder criador. Para Jung, na libido está o poder criativo, ampliando assim o campo de visão delimitado por seu mestre. Jung percebeu na coletividade aquilo que ele chamou de inconsciente coletivo com resquícios de memórias ancestrais, uma herança humana, que hoje poderia ser chamada de herança genética, que compõe aquilo que ele denominou de arquétipos. Muito da estrutura humana é uma herança dos ancestrais, adaptada ao tempo, mas sem perder a raiz da ancestralidade. Jung introduziu em seus estudos aquilo que foi chamado de experiências paranormais e estados alterados da consciência, dissociação, personalidades secundárias, enfrentamento com o luto etc. Embora tudo isso seja raramente estudado na psicologia e na psicanálise, seja por preconceito entre os próprios psicanalistas ou por não saber como lidar com o tema, ou ainda, por medo do enfrentamento com o oculto. A crença na imortalidade da alma e em uma vida após morte contribuíram para estes estudos. Embora a mediunidade recebesse uma abordagem científica somente no final do século XX, ela já era estudada na antiguidade pelos egípcios na obra intitulada O livro dos mortos e pelos tibetanos em o Livro tibetano dos mortos. Estes livros tornara-se a base dos estudos da mediunidade. Em 1882, em Londres, fundou-se a Society for Psychical Research, na universidade de Cambrige, para estudos da mediunidade, do qual Jung chegou a participar. Posteriormente, investigações sobre o assunto foram retomadas em pesquisas sobre a natureza da consciência e a relação mente e corpo.



domingo, 24 de fevereiro de 2019

DEMOCRACIA, UMA MÃE QUE ACOLHE SEU FILHO


Eliani Gracez –  Psicanalista

Segundo Humberto Maturana e Gerda Verden-Zoller, hoje em dia muitas nações declaram a democracia como forma preferida de governo. No entanto, a prática da democracia como sendo uma coexistência com respeito mútuo permanece somente como um mero desejo literário. Trata-se apenas de discurso vazio de conteúdo para confundir pessoas desatentas e conseguir o poder político. O emocionar do discurso muitas vezes esconde o controle do comportamento do outro. Tais conversações se ocultam, muitas vezes, atrás de argumentos de justiça. A democracia nasce quando nasce um acordo entre os membros de uma sociedade. Conversações que estimulam a legitimidade da competição não passam de resquícios de uma sociedade patriarcal que visa o domínio sobre o outro e um estímulo a inimizade para fomentar a competição e o lucro. Em um mundo democrático existe a cooperação e o compartilhar. Portanto, o emocionar do discurso democrático deveria ser a ação de uma distribuição participativa. Para Maturana, o conceito de democracia atual vem do patriarcado que buscava o poder. Parafraseando Oscar Wild, por trás do bem reside a essência do mal. Do discurso a ação existe uma longa caminhada. No livro Amar e Brincar fundamentos esquecidos do humano, de autoria de Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller, os autores fazem um exame dos fundamentos da democracia. Maturana e Verden-Zöller veem a democracia como uma forma de convivência entre adultos que tenham vivido na infância a aceitação materna. Um conceito de mãe que acolhe seus filhos que na fase adulta, de fato, não somente em teoria, praticam a paz e o bem democrático. A democracia como nós a temos hoje é uma negação da vida e da dignidade centrada na apropriação do controle para manter o poder. Um patriarcado repaginado, um sistema artificial de convivência social com justificativas racionais. Isso porque a razão serve a dois senhores, o senhor do bem e o senhor do mal.



A EDUCAÇÃO PELA AUTORIDADE DEVE SER SUBSTITUÍDA POR UM NOVO MODELO RICO EM SABEDORIA


Eliani Gracez- Psicanalista

Não existe um ser universal, porquanto o ser é constituído por fatores existenciais que formam combinações e transformações transitórias que, por sua vez, alteram a cultura e levam pessoas para mudanças em uma espiral sem fim. Partindo de uma visão holística, a criança não é mais o bebê, o adolescente não é mais a criança, e o adulto de hoje não é o mesmo adulto do passado, tampouco será a mesma pessoa no futuro. Em resumo, nós e o mundo que nos cerca estamos nos transformando. O fato é que este mundo já não é mais o mesmo, esse velho planeta cheira a novidade. A mulher mudou, a criança mudou. E os idosos estão em um processo contrário, estão rejuvenescendo. Corremos, temos pressa, somos impacientes, não conseguimos parar, queremos tudo agora. Não toleramos a mesmice, enfim, queremos mudanças. A tecnologia tomou conta da vida. Computadores, máquinas informatizadas, configurações unindo hardware e software, inúmeros satélites rodeando o planeta. Segundo Zimerman, uma jovem estudante de medicina na década de 60, em um grupo de terapia, levou aproximadamente um ano e meio, com medo da culpa e do julgamento das demais pessoas do grupo, para confessar que mantinha relações sexuais com seu namorado. A moral do passado não é a mesma moral da atualidade. Hoje vivemos em um mundo interligado onde os acontecimentos importantes têm repercussão quase que instantânea. Isso requer uma visão sistêmica da vida e do mundo onde a maneira como as partes estão integradas e estruturadas é mais importante do que o individualismo. A forma como as pessoas estão integradas ao todo é mais importante do que cada parte isolada. Em meio a tudo isso, novos padrões éticos precisam ser analisados. A família nuclear passa por transformações radicais. Casamentos seguidos de separações e novos casamentos, mudaram a configuração da família. Para o psicanalista Jean-Pierre Lebrun, o modelo tradicional de família tem sofrido modificações significativas. O modelo do passado era de uma hierarquia, em forma de pirâmide, onde os filhos deviam obediência aos pais. Esse modelo tornou-se decadente e foi substituindo por um novo modelo onde o filho é tão respeitado quanto o pai, e a mulher tem a mesma igualdade e os mesmos direitos que o homem. Esse novo modelo não é bom nem ruim, ele é apenas diferente. O problema é que esse novo modelo requer uma nova forma de educação. A nova criança é ousada e não teme os pais e quer liberdade para fazer suas próprias escolhas. Ela quer ser “dona do seu nariz”. Com isso os pais perderam a autoridade sobre os filhos. A educação pela autoridade deve ser substituída por um novo modelo rico em sabedoria, onde a criança compreende sua importância no mundo e é preparada para exercer seu papel dentro da sociedade. Essa nova criança surge como espelho à liberdade da mulher. A submissão da mulher, no passado, também foi modelo para crianças que deram continuidade ao patriarcado. Em meio a essa mudança toda, tem jovens que não sabem o que fazer com sua liberdade, porque não foram preparados para enfrentar o grande desafio que é viver e fazer escolhas. Se no passado os pais faziam escolhas pelos filhos, hoje são os próprios filhos que fazem suas próprias escolhas. Isso exige um preparo que muitos não têm. Exige que pais preparem seus filhos para fazer escolhas com responsabilidade. Nesse novo paradigma também é preciso ensinar aos filhos a lidar com a adversidade e com as falhas humanas. Não somos perfeitos, vamos errar inevitavelmente mais cedo ou mais tarde. Os pais de hoje procuram dar de tudo aos filhos e criam a ilusão de uma vida sem erros. No passado, quando uma criança tirava notas baixas na escola, ela sabia que teria de se justificar diante dos pais. Hoje, quando uma criança vai mal na escola, os pais tratam como se a falha fosse do professor e não da criança. No modelo atual, é o professor que tem que se justificar pelo baixo rendimento do aluno, eximindo a criança do erro. O sonho de uma vida sem erros e repleta de prazer, muitas vezes, acaba no consumo de drogas. Uma fuga às dificuldades da vida que nem sempre é tão perfeita quanto a infância. Em meio a toda essa mudança que o planeta passou, a moral teria necessariamente que ser questionada, desse questionamento surge uma nova moral e um novo modelo de homem, que não é mais o modelo da Grécia em seu período clássico, onde o homem se oferecia aos deuses e cultuava o belo. Tão pouco é o modelo aristotélico do homem virtuoso, muito menos é o modelo medieval onde a vida só valia a pena ser vivida em Deus. A vida de hoje pede uma nova reflexão ética para dar origem a uma nova moral.


Uma mente que brilha

Eliani Gracez   Em virtude da negatividade do cérebro, é preciso um empenho ativo para interiorizar as experiências positivas e cicatrizar ...